Como falar sobre sexo com os seus filhos

Falar sobre sexo com os jovens não é tarefa das mais simples. Se o início da vida sexual merece uma conversa com alguém mais experiente, é preciso muito tato para não invadir a privacidade ou criar uma barreira intransponível

Rosto coberto de espinhas, corpo meio desengonçado, temperamento difícil... Tá na cara: são os sinais de um transbordamento de hormônios que prenuncia que aquela criancinha tão fofa e inocente chegou à adolescência – e, portanto, vive em meio a uma avalanche de desejos sexuais.

Mas como tocar nesse assunto com jeitinho?

A questão assombra os pais desde sempre. E, se é certo que algumas famílias conseguem manter um canal aberto dentro de casa, facilitando bastante a missão, a grande maioria dos jovens prefere ficar de bico calado, deixando a cabeça dos pais apinhada de receios e de curiosidade.

Um fato que costuma acalmar alguns é o acesso à informação, hoje muito maior do que nas gerações passadas. Grande parte das escolas tem aulas sobre sexualidade, os meios de comunicação abordam o assunto abertamente, a internet está recheada de páginas sobre sexo e os jovens têm mais liberdade para trocar informações.

Graças a isso, é difícil encontrar um menino ou uma menina que não saibam da importância do uso da camisinha ou ignorem a possibilidade de uma gravidez não planejada ou o risco de uma doença sexualmente transmissível.

Mas isso não significa que eles estejam seguros para tomar as devidas precauções na hora H.

Um estudo feito na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e divulgado no ano passado mostrou que um terço dos jovens de 14 a 25 anos nunca usa o preservativo em suas relações sexuais.

Essa mudança radical dos tempos também atingiu em cheio o modo como os filhos encaram o assunto, colocando em cheque diversos paradigmas.

Para Maria Helena Vilela, especialista em sexualidade e diretora executiva do Instituto Kaplan, em São Paulo, isso pode tornar mais difícil o papel dos pais que querem ajudar os filhos.

“A vida sexual está começando mais cedo e os jovens estão mais abertos a experiências diferentes, e isso faz com que os pais muitas vezes fiquem constrangidos de ouvir coisas que não gostariam de ouvir ou com as quais não sabem lidar porque não passaram por isso”, avalia.

Diante dessa situação, o que definitivamente não funciona é adotar uma postura de dono da verdade, sob o risco de criar, assim, uma distância ainda maior. “Os mais velhos não têm que saber de tudo, mas devem mostrar que estão abertos a ajudar ao dizer que, se não passaram por isso, vão pesquisar sobre o tema”, aconselha a especialista.

A disponibilidade de informação sobre sexo tampouco garante que os jovens se sintam preparados para decidir o que estão prontos para fazer, e com quem.

Por isso, vale a pena investir em um papo mais direto e pessoal. Mas como fazer isso sem criar um clima pesado?

Dizer que está aberto para uma conversa pode ajudar, mas implica em deixar o adolescente a cargo do primeiro passo – o que pode ser difícil para ele.

“Uma boa forma é introduzir o tema de maneira indireta, puxando tópicos relacionados sem falar explicitamente do filho, como comentar uma reportagem e perguntar se com a turma dele isso acontece”, ensina Maria Helena.

“É preciso ter muito cuidado para não ser invasivo, além, é claro, de não repreendê-lo, pois isso pode deixá-lo acuado e romper um canal de comunicação que é muito benéfico”, alerta.

Ajuda bem-vinda

Questões culturais, de criação ou de personalidade, tanto dos pais quanto dos filhos, influenciam muito no espaço que existe na relação para esse tipo de conversa.

E quando esse espaço é estreito demais, pedir ajuda de alguém da confiança de ambos pode ser a saída.

No caso das meninas, uma ótima opção é sugerir que ela converse com um ginecologista. Se ela não apresentar nenhum problema, a primeira consulta deve acontecer quando ela se sentir à vontade e mostrar interesse.

“Pressionar a jovem para que ela vá até o consultório contra a sua vontade não é uma boa ideia, pois pode fazer com que ela desenvolva um sentimento negativo pelo médico”, alerta Paula Vilela Gherpelli, ginecologista e obstetra.

“Mas, se a família tem alguma doença crônica, como pressão alta ou diabetes, um especialista pode orientar sobre os hábitos em geral e trabalhar na prevenção”, diz Paula.

Ir sozinha ou acompanhada ao ginecologista?

Uma vez que a filha se dispôs a conversar com o médico, as mães devem perguntar se elas querem ir acompanhadas ou não – e usar a sensibilidade para perceber se a jovem prefere ficar sozinha na consulta, mesmo que não verbalize. E isso foi comprovado por cientistas.

Um estudo realizado na Escola de Medicina da Indiana University, nos Estados Unidos, mostrou que a presença dos pais pode fazer com que eles não falem sobre assuntos como vida sexual, drogas, estresse e autoimagem.

“Além disso, a consulta ginecológica pode ser um momento para a menina começar a se responsabilizar pelo seu corpo, e a ausência da mãe potencializa esse processo”, acrescenta Paula. “Os pais precisam entender que, por mais legais e abertos que sejam, não são amigos dos filhos e não são vistos pelos adolescentes dessa forma”, avisa Maria Helena Vilela.

Além disso, é importante que os responsáveis entendam que eles até podem abordar assuntos pontuais com o médico antes da consulta, mas que toda menina, mesmo as menores de idade, tem direito à confidência do ginecologista.

“Eu sempre explico isso no primeiro encontro para que fique bem claro e para que a paciente se sinta mais à vontade para me contar o que achar que deve”, ressalta Paula.

Maria Helena avalia também que alguns pais se sentem mais seguros quando permitem que os filhos tragam os parceiros para dentro de casa. “Isso ajuda a ver com quem seu filho está saindo e evita que eles acabem transando em lugares sem segurança”, diz. “Mas é preciso avaliar se a família está mesmo disposta a ter uma pessoa nova em casa, afetando a sua privacidade, e se vai ficar à vontade mesmo sabendo que o jovem pode estar tendo uma relação sexual no quarto ao lado”, acrescenta a especialista.

De qualquer forma, falar sobre sexo com o filho adolescente vai se tornar de fato uma missão impossível se os pais não investirem em passar tempo de qualidade com eles.

“Fazer as refeições juntos, passear juntos, conversar sobre as coisas em geral são formas de melhorar a comunicação como um todo”, lembra Maria Helena. Com isso, abre-se a possibilidade de assuntos como esse surgirem com mais naturalidade, deixando claro para o jovem que ele tem nos pais pessoas que querem o seu bem e que, acima de qualquer coisa, é essencial respeitar seu corpo e suas vontades.

Fonte: Revista Célula Mater Press, edição nº 10, página 08, 2015

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Conselho editorial: Equipe Médica Célula Mater

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Reportagem: Thaís Szego

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Revisão de texto: Paulo Kaiser

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