A Cura no ventre da mãe. Revista Veja

Reportagem: Adriana Dias Lopes - Edição 2469 - 16 de Março 2016

Uma técnica para tratar doença do sistema nervoso central de bebês em gestação é o maior avanço na cirurgia fetal ocorrido nas últimas duas décadas. VEJA acompanhou a operação inovadora.

As certezas e o nervosismo juntam-se em uma mistura paradoxal no 3º subsolo do Centro cirúrgico do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. A chef de cozinha Thaís Smocowisky está sedada, pronta para ser submetida a uma das operações mais delicadas e modernas da medicina. Aos 27 anos, ela está grávida de 4 meses de Theo, portador de uma doença severa que acomete o sistema nervoso. O procedimento - cirurgia fetal - transcorrerá dentro do ventre de Thaís. Cinco profissionais, entre médicos, enfermeiras e instrumentadoras estão a postos. As luzes se apagam. Há apenas dois holofotes sobre o corpo de Thaís. Ouve-se música pela primeira vez no ambiente: as Bachianas Brasileiras nº 5, de Villa-Lobos. A cirurgiã Denise Pedreira, coordenadora da intervenção, entra discretamente na sala.

Os médicos falam o tempo todo, trocando informações sobre o procedimento. Passa-se meia hora. O volume das vozes, até então baixinho, sobe de repente.

- Houve uma alteração sanguínea - diz firmemente o anestesista.

Havia excesso de gás carbônico no sangue da mãe, condição perigosa para o coração. É uma situação raríssima. Nesse tipo de cirurgia, injeta-se o gás no útero materno de modo a facilitar o manuseio dos instrumentos.

Uma pequena porção do gás entrara na corrente sanguínea de Thaís por meio dos vasos do próprio útero.

- Parem tudo. Vamos observar como a mãe reagirá nos próximos cinco minutos - alerta Denise, com calma, sobrepondo-se ao som das Bachianas.

O organismo de Thaís reagiu adequadamente. Em três minutos o gás foi naturalmente expelido pelos pulmões. A operação prosseguiu. Em uma hora estava encerrada. A mãe, vinte minutos depois, acordou na sala do centro cirúrgico. O problema de Theo foi corrigido e o parto, programado para o mês de Maio.

A cirurgia conduzida pela médica Denise é um extraordinário avanço na cirurgia fetal. Acesse Imagem aqui

O bebê sofria de mielomeningocele, doença caracterizada pelo fechamento incompleto da coluna fetal, sobretudo na região lombar. O problema é o mais recorrente entre os que acometem o sistema nervoso central - 30% dos bebês doentes sofrem dele. No Brasil, afeta um em cada 1000 bebês nascidos vivos - o que representa, em números absolutos, 3000 crianças todos os anos. A mielomeningocele está relacionada a alterações genéticas e a baixos níveis de ácido fólico no organismo da mãe no momento da concepção e durante as primeiras dez semanas de gravidez. A falta do composto pode decorrer tanto da suplementação ineficiente quanto da incapacidade do organismo materno para armazená-lo - era esse o caso de Thaís. Em decorrência de mecanismos ainda não completamente desvendados, no começo da formação do embrião, dá-se um descompasso entre o desenvolvimento dos tecidos nervoso e ósseo. O resultado é que a medula espinhal fica exposta numa bolsa repleta de liquor, fora do organismo do feto. Essa anomalia provoca o deslocamento do cérebro e favorece o acúmulo de liquor também no crânio, o que faz com que a criança, além de apresentar todos os comprometimentos motores e cognitivos, sofra de hidrocefalia, o acúmulo de liquor no cérebro.

A nova técnica cura o defeito medular por meio da laparoscopia. Com furos minúsculos, de apenas 3 milímetros de diâmetro, cânulas finíssimas equipadas com agulhas e tesouras entram na barriga da mãe até chegar ao interior do útero, onde é realizada a cirurgia. Até pouco tempo atrás, a única possibilidade de tratamento da mielomeningocele era a cirurgia realizada horas depois do nascimento. O grande risco desta modalidade cirúrgica: a medula do recém-nascido pode estar lesionada por ter permanecido exposta ao líquido amniótico durante toda a gestação. Na imensa maioria dos casos, torna-se necessário implantar uma válvula no cérebro que drena o liquor para a cavidade abdominal, de modo a controlar a hidrocefalia. O dispositivo é uma porta aberta para infecções. No fim da década de 90, a medicina passou a tratar do problema durante a formação do bebê - dentro do ventre materno, portanto. As cirurgias, porém, eram feitas a "céu aberto", recurso ainda muito utilizado. No método laparoscópico, desenvolvido em 2009 na Universidade de Gissen, em Marburg, na Alemanha, o campo de visão dos médicos é orientado por meio de uma aparelho de ultrassom. Nem o feto nem o útero materno ficam expostos, o que reduz o risco da mãe e o bebê. O Brasil é o segundo país no mundo a dominar sofisticada técnica.

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