Dra. Denise Lapa

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Entrevista com Dra. Denise Araújo Lapa  - Um passo à frente

Pioneira na área de medicina fetal terapêutica, Denise Lapa Pedreira revela como conseguiu o que muitos consideravam impossível, enquanto conciliava os papeis de médica, pesquisadora e mãe

No dia 17 de junho, quando viu o parto do bebê Joaquim, a especialista em medicina fetal da Célula Mater Denise Araújo Lapa (mãe de um casal de filhos) sentiu como se seu terceiro rebento tivesse vingado. Com 25 semanas de gestação, Joaquim foi submetido a uma cirurgia endoscópica para tratar a mielomeningocele, também conhecida como espinha bífida, uma malformação na coluna cujas principais sequelas são a perda de movimento dos membros inferiores e hidrocefalia. O feito foi revolucionário: Denise se tornou a primeira médica no mundo a realizar a técnica, 100% brasileira, desenvolvida ao longo de 14 anos de pesquisa.

Muito antes de que ela chegasse a essa façanha, as gestantes da Célula Mater já conheciam a dedicação e a precisão dos diagnósticos de Denise, que trabalha na clínica há 18 anos, fazendo dos tão esperados ultrassons pré-natais verdadeiros eventos. Seus olhos treinados são capazes de detectar minúcias que passam em branco por muitos outros médicos da área. Detalhes que ela explica com paixão aos casais embasbacados pelo inesquecível som dos batimentos cardíacos do bebê, e pela visão de seus movimentos dentro do útero da mãe. “Apesar de não fazer o pré-natal, sinto como se fosse também a médica delas. O exame dura cerca de 30 minutos, papeamos bastante e tudo vira uma grande família”, conta.

De observar a formação do feto até intervir quando algo não vai bem – especialidade que ficou conhecida como medicina fetal terapêutica – foi um salto natural. Nos anos 80, fascinada pelas perspectivas da evolução da ultrassonografia, Denise começou a trabalhar com médicos desbravadores, que desenvolviam novas técnicas. Foi à fonte de todas essas inovações, estudando nos Estados Unidos e na Inglaterra. E voltou ao Brasil com uma bagagem que poucos no mundo tinham. Hoje, gestantes de todo o país recorrem a ela tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento de malformações que antigamente só podiam ser tratadas após o nascimento.

Durante esses anos todos, paralelamente ao trabalho científico, Denise montou a área de medicina fetal da Célula Mater, do Hospital Albert Einstein e, desde setembro do ano passado, está implantando um centro de medicina fetal terapêutica no Hospital Samaritano. Também fundou a Rede Fetal Brasileira, que disponibiliza para todos os médicos do Brasil informações de quais são as doenças congênitas que já têm tratamento, facilitando o encaminhamento. De quebra, criou seus dois filhos – graças ao apoio de toda a família, como você verá na entrevista a seguir, em que Denise conta os caminhos que desbravou para chegar até aqui.

Como você explica a capacidade que tem de enxergar detalhes tão pequenos de um feto para fazer os diagnósticos com precisão?

Denise Lapa Pedreira :Acho que é uma combinação de dom com experiência. Não é só treinar o olhar, porque é preciso ser capaz de associar a imagem que você vê com outras que você já viu, e isso está relacionado tanto com a quantidade de imagens que você já viu como com a memória fotográfica que algumas pessoas têm. Então não adianta apenas ter os equipamentos mais sofisticados, se não houver o profissional capaz de entender a imagem que eles mostram.

Nesses anos todos, teve algum caso que você considera mais marcante?

Denise Lapa Pedreira: É impossível dizer apenas um e acabo sempre lembrando dos mais recentes. Mas gostaria de falar da Aline, que tinha uma gestação de gêmeos idênticos que dividiam a mesma bolsa amniótica. Em casos assim, corre-se o risco dos cordões umbilicais se entrelaçarem e, com isso, perde-se os dois bebês. Tudo indicava que um dos bebês iria morrer – e, quando um bebê morre, o outro morre junto. Propus para ela um procedimento para ocluir e cortar o cordão umbilical do bebê que era malformado. Em outras palavras: tirar a vida de um bebê para dar chance para o outro. Nesse tipo de situação não há outra saída. Como isso nunca tinha sido feito no Brasil, ela teve que pedir um alvará judicial. O juiz aprovou o pedido e seu parecer foi uma das coisas mais bonitas que já vi do ponto de vista humano, porque ele entendeu a angústia da mãe. O procedimento em si também foi muito difícil. Pensei que não ia conseguir, mas no final deu tudo certo. Toda vez que viajo para Sergipe, terra dos meus pais, encontro com ela e com o João Rafael. Além da história de superação da mãe e bebê, essa cirurgia foi especial porque encontrei um monte de desafios e consegui ultrapassá-los. Essa experiência me deu a tranquilidade de que conseguiria fazer a operação da mielomeningocele.

Assim como nesse caso da Aline, imagino que os dilemas éticos fazem parte da sua rotina de trabalho. Como você lida com isso?

Denise Lapa Pedreira: O objetivo do diagnóstico pré-natal não é somente a interrupção da gestação em casos alterado, mas também o preparo dessa família para receber essa criança especial. A primeira pergunta que eu sempre me faço é o que eu faria se estivesse no lugar dessa paciente. Se eu tivesse grávida de um bebê com um diagnóstico síndrome de Down, eu interromperia a gestação. Respeito e admiro quem encara esta gestação, mas acredito que tem que haver a opção de escolha para todos. Mas esta sou eu e eu gostaria de poder fazer isso legalmente, porque na minha opinião essa proibição deixa o paciente extremamente desprotegido, já que ele vai buscar outras maneiras ilegais de realizar o aborto.

Ao ver tudo o que você conquistou em sua carreira, acredito que muitas mães devem se perguntar: como você arranjou tempo para criar filhos?

Denise Lapa Pedreira: Hoje agradeço muito à minha mãe por ter me ensinado que não se pode focar sua vida só nos filhos, que crescem e vão ter a vida deles. Ela tinha sofrido muito e me estimulava a nunca abandonar a minha carreira. Naqueles momentos difíceis, que todas nós temos, consegui lidar melhor com a culpa por conta desse ambiente familiar. Meu marido sempre foi muito parceiro e, por ser médico, entende as limitações. E minha mãe e minha sogra também estavam lá quando as coisas ficavam complicadas. Mas conciliar as duas coisas significa fazer escolhas difíceis todo o tempo. Todos os passos da minha linha de pesquisa foram curtos, que fui dando aos poucos enquanto criava os meus filhos. Com a convicção de que não ia largar minha profissão, segui em frente, mas o que fiz em 14 anos de pesquisa, um homem teria feito em metade do tempo.

Em algum momento você se sentiu prejudicada por ser mulher à frente de uma pesquisa científica?

Denise Lapa Pedreira: Nunca me senti prejudicada, mas você tem que se provar o tempo todo. A mulher tem que ser melhor do que os homens para ser reconhecida. Hoje os meus pares no projeto de pesquisa são homens e me respeitam, porque sou o cirurgião ali, mas principalmente porque acham que a minha capacidade é maior do que a deles. Se fosse igual, eles não me respeitariam.

E como está o Joaquim, que já completou dois meses de vida?

Denise Lapa Pedreira: Ele está super bem, já mexe as duas perninhas, o prognóstico para andar parece bem favorável. Muito provavelmente ele não vai ter hidrocefalia, pois o cerebelo já voltou ao normal, e todo o equilíbrio do líquido de dentro da cabeça se restabeleceu.

Para onde estão apontando as novas pesquisas na área da terapia fetal?

Denise Lapa Pedreira: Há dois ramos da terapia fetal: a genética e a cirúrgica. A possibilidade de implantar células-tronco de outro indivíduo durante a vida intrauterina para que o feto não desenvolva determinada doença, vai evoluir muito no tratamento de doenças genéticas, principalmente nas hematológicas como as talassemias, que podem até ser letais. Mas, sem dúvida, a área cirúrgica é a mais promissora. Quando a gente conseguir operar a mielomeningocele com mais segurança, isto é, fechando os furos deixados na membrana amniótica, que é o nosso calcanhar de Aquiles – depois de um tempo os furos por onde entraram os instrumentos cirúrgicos fazem com que a membrana se rompa, antecipando o parto –, vamos eventualmente conseguir reparar um lábio leporino intrautero ou operar tumores, o que é muito legal.

Em 1998, você foi a primeira médica brasileira a realizar fetoscopia num caso de síndrome de transfusão feto-fetal (quando gêmeos dividem a mesma placenta, e um deles recebe mais sangue do que o outro). Em abril deste ano, foi a primeira médica das Américas e a segunda profissional no mundo a realizar a cirurgia endoscópica para fechamento de mielomeningocele, utilizando uma técnica alemã. Há algumas semanas, fez o mesmo procedimento, no entanto, inaugurou sua técnica, 100% brasileira. Como você encara essas conquistas tanto na esfera profissional como na esfera pessoal?

Denise Lapa Pedreira: Nesses últimos meses tenho a impressão que o sonho virou realidade. Meus filhos estão bem encaminhados e, agora, meu terceiro filho também. Imagina o que é sonhar com isso durante 14 anos e ver pela primeira vez as costinhas fechadas do bebê na hora do parto. Ele é o primeiro do mundo. Há 14 anos, muitas interrogações martelavam minha cabeça. Até hoje, quando explico a técnica em Congresso, as pessoas não acreditam que pode dar certo. Está dando certo, um médico alemão está fazendo isso, eu estou fazendo isso. Não posso dizer que o caminho até aqui não foi sacrificado. As preocupações, os vários “nãos” antes de um “sim”, os passos para trás, são muito doloridos. Mas tenho a caixinha dos dias deprimidos, onde guardo todas as lembrancinhas que as mães me dão, e ela me enche de energia para continuar a luta. E quando encontro uma mãe que me mostra o filho vivo e saudável, não tem nada que pague isso.

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