Exército da faxina

Exército da faxina. A cada dia que passa, os cientistas ficam mais convencidos de que os probióticos e os prebióticos são capazes de revitalizar o funcionamento do intestino.

Saiba tirar bom proveito dessa dupla

O pobre intestino costuma ser associado a um mero tubo onde se formam as fezes. Justiça seja feita: “A célula intestinal tem várias funções. Ela estimula o sistema imunológico, produz ácidos graxos de cadeia curta, que promovem a absorção de água, e fabrica substâncias anti-inflamatórias”, explica a nutróloga Flávia Alvarenga Netto, do Instituto de Nutrição da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Sem contar que, dentro desse tubo, vive uma comunidade de 500 bilhões de bactérias, de 400 espécies diferentes. É a famosa flora intestinal, indispensável na absorção, digestão e excreção de nutrientes.

Mas esse complexo sistema, assim como o resto do organismo, sofre os efeitos do tempo. Com o passar dos anos, as supercélulas do intestino não funcionam com tanta eficiência. Recebem menos enervações. Sem energia, ficam preguiçosas e mais lenientes a sujeitinhos desclassificados que apareçam por aí para nos atormentar com diarreias e outras infecções.

Com a maturidade, alterações nas secreções gástrica, pancreática e biliar transformam também a flora intestinal. Muitas vezes, há a redução na produção de algumas enzimas digestivas. Os sentidos do olfato e do paladar também mudam, o que diminui o apetite. “Nessa fase da vida, é alto o risco de desnutrição pela menor ingestão de macro e micronutrientes, e isso pode piorar se o intestino não estiver funcionando normalmente”, explica Tânia Rodrigues, especialista em Nutrição Esportiva pela Associação Brasileira de Nutrição.

Enfim, a batalha diária travada dentro do intestino para absorver o que precisamos e eliminar tudo o que não serve mais – função, aliás, nobilíssima – precisa de uma mãozinha extra à medida que a idade avança. Aí é que entram os probióticos. Pra quem não os conhece, trata-se de micro-organismos que atendem pelos pomposos nomes de Lactobacillus e Bifidobacterium, que se alojam na mucosa intestinal, formando uma espécie de barreira física às bactérias patogênicas. Geralmente, estão presentes em iogurtes e leites fermentados, mas também são comercializadas como medicamentos e suplementos alimentares.

Esses benfeitores, por sua vez, possuem grandes aliados: os prebióticos. Alojados no intestino grosso, eles servem de alimento aos probióticos. E podem também ser consumidos em cápsulas, como complementos alimentares. Essa dupla favorece o crescimento da microflora intestinal, garantindo portanto uma faxina bem-feita. Bem-feitíssima, diga-se. A lista de benefícios apontados pelos trabalhos científicos é considerável. Tudo indica que, em pessoas acima dos 65 anos, os dois ajudam no controle e há a estabilização da microbiota intestinal, melhoram a resistência a bactérias patogênicas e promovem a digestão da lactose em indivíduos intolerantes. E tem mais: estimulam o sistema imune, aliviam a prisão de ventre e aumentam a absorção de minerais e a produção de vitaminas.

Pesquisas recentes demonstram que, por um lado, o idoso tem menos diversidade de bactérias no intestino. E por outro possui mais micro-organismos nocivos. Já um adulto saudável apresenta uma maior variedade de bactérias benéficas, que atuam como agentes anti-inflamatórios. “Antes ninguém analisava as fezes e por isso não se sabia que as bactérias presentes no intestino do idoso são diferentes das presentes no adulto”, revela Paula Gherpelli, ginecologista e obstetra da Clínica Célula Mater.

Outro estudo sugere que a flora intestinal pode influenciar no desenvolvimento de doenças, particularmente no que diz respeito à resposta imune e à inflamação – fatores que contribuem para diabetes, câncer e doenças cardiovasculares. “Em outras palavras, melhorar a flora intestinal diminui a inflamação sistêmica e, consequentemente, reduz o risco de doença crônica”, conclui Paula.

O grande desafio dos estudiosos atualmente é descobrir qual tipo de probiótico é ideal para cada situação clínica. Sabemos que as bifidobactérias, por exemplo, ajudam o intestino preguiçoso. Já os lactobacilos equilibram a flora intestinal. Um exemplo mais específico é o Lactobacillus casei defensis (presente no leite fermentado Actimel), que regula a estabilidade da microbiota e aumenta a quantidade de células de defesa. “Os estudos estão em evolução, mas o que nos estimula é sabermos que, por serem probióticos, partem do princípio de que fazem o bem”, diz Flávia.

Por isso, para saber qual o produto e como consumi-lo, o ideal é consultar um nutricionista. “Para efeito terapêutico, é recomendada a ingestão diária de algum produto que contenha essas substâncias.

E pode ser em qualquer hora do dia”, diz Tânia. Claro, não se esquecer daquelas recomendações básicas que todos já estamos carecas de saber (mas que muitas vezes não fazemos): beber bastante água, o que ajuda na formação do bolo fecal, e praticar exercícios, que estimulam a movimentação do intestino e a frequência de evacuação. Assim fazemos nossa parte na faxina, garantindo um organismo mais limpo e muito mais saudável.