Saudades dos anos em que você dormia como um anjo? Pois é

Saudades dos anos em que você dormia como um anjo? Pois é.

Sonho meu...

Saudades dos anos em que você dormia como um anjo? Pois é. Uma ligeira diminuição do sono é uma condição natural que vem com o avanço da idade. Mas isso não quer dizer que você tenha que conviver com o fantasma da insônia

Veja se você se encaixa na seguinte situação: antigamente, deitava na cama e, em questão de minutos,  apagava. Dormia profundamente até o sol raiar. De uns anos para cá, no entanto, pegar no sono não tem sido nada fácil. Pior é que, quando finalmente consegue abraçar Morfeu, acorda no meio da noite e fica irritantemente atento ao tique-taque do relógio, à torneira do banheiro gotejando, ao barulho de um carro passando na rua... Entre um ruído e outro, um turbilhão de pensamentos toma forma, espantando o sono de vez.

Se esse é o seu caso, antes de mais nada saiba que as noites maldormidas são resultado de uma série de fatores – e alguns deles têm a ver com transformações do organismo que vêm com a maturidade. “O sono é dividido em quatro fases, formando ciclos que se alternam ao longo da noite. O idoso tem uma diminuição do sono profundo e reparador da fase 3, e um aumento do sono das fases 1 e 2, que são mais leves. Assim, o sono fica mais superficial, mais suscetível à fragmentação”, explica a psicóloga Silvia Conway, que atua na área da Medicina do Sono há 15 anos no Instituto do Sono Campinas. Até aí, não há com que se preocupar: são mudanças naturais.

A temida insônia aparece quando, a esse quadro, se soma algo geralmente ligado à ansiedade ou à angústia. Se você acorda de noite, para arrumar o travesseiro ou ir ao banheiro, e esses sentimentos invadem a sua mente, fica mais difícil voltar a dormir. As breves interrupções do sono – com ou sem consciência – são corriqueiras. Mas em um organismo predisposto ao sono leve as questões emocionais tendem a fazer com que essas interrupções se intensifiquem. Digamos que a pessoa esteja enfrentando um período especialmente difícil.

Ao despertar no meio da madrugada, é provável que a apreensão dispare o gatilho da insônia. Será considerada uma insônia aguda se, passada essa temporada estressante, o sono voltar ao normal. “Só que, com o passar do tempo, o corpo se condiciona a esse estado. A insônia se autoalimenta, tornando-se uma doença crônica”, afirma Silvia.

E como saber se você tem algum distúrbio do sono? Para os estudiosos do tema, se alguém não consegue dormir bem mais de três vezes na semana – e se essa situação perdura por mais de um mês – é sinal de que algo vai mal. Outro termômetro tem a ver com a sensação de cada um. Caso você tenha noites agitadas, mas mesmo assim consiga passar o dia bem (com ou sem um cochilo depois do almoço), sinal verde. “Mas, se começar a se queixar de cansaço, sonolência, perda de memória, de concentração e alteração de humor, é preocupante: esses sinais estão associados ao déficit de sono”, ensina Silvia. Nesse caso, nada de ir tomando remédios a torto e a direito. É necessário ir ao médico para investigar o que está acontecendo.

Para ajudá-lo, há uma série de profissionais ligados à Medicina do Sono: especialidade em que neurologistas, psiquiatras, psicólogos, pneumologistas e otorrinolaringologistas debruçam-se, juntos, para desvendar as raízes da insônia. Atualmente, o tratamento mais indicado é a chamada terapia cognitivo-comportamental – que, além de esmiuçar o gatilho emocional da insônia, também tem o objetivo de mudar padrões de comportamento que afetam a capacidade de dormir bem, além de ajudar a promover hábitos saudáveis de sono.

Quando necessário, é possível lançar mão de medicamentos hipnóticos, que ajudam o paciente a entrar no sono ou sustentá-lo. “Esses remédios não geram dependência no grau físico, pois foram criados para serem usados numa fase de transição do tratamento que dura até três meses”, explica Silvia, lembrando que eles são diferentes dos tranquilizantes tarja preta, que derrubam o Sistema Nervoso Central, como Rivotril, Valium e Lexotan, entre outros. Para adeptos de métodos mais holísticos, também são indicados florais de Bach, medicamentos fitoterápicos e chás. Outra alternativa é a reposição hormonal para mulheres na menopausa, que deve ser bem avaliada em cada caso.

O importante é saber que não é porque a maturidade chegou que você está fadado a virar madrugadas em claro. “Na minha experiência, de cada dez pacientes, sete têm melhora absoluta, dois apresentam considerável melhora do padrão de sono e um desiste do tratamento”, diz Silvia. Ou seja: desde que haja comprometimento do paciente para se desvencilhar de alguns comportamentos nocivos, as chances de voltar a dormir bem são grandes.

No encalço do inimigo
Abra os olhos para alguns fatores que podem lhe tirar o sono

• Fatores psicológicos: “A chances de insônia são muito pequenas em pessoas que têm uma vida social e emocional estruturada”, diz Silvia Conway.

• Depressão: tanto a depressão pode levar à insônia quanto vice-versa. “Mas essas duas condições são autônomas: A tratar uma, não necessariamente vou curar a outra”, explica a psicóloga, comentando que, em geral, pessoas com depressão tem despertar precoce matutino, ou seja, acordam antes da hora prevista, com dificuldade para retomar o sono.

• Problemas respiratórios durante a noite, como ronco e apneia, que levam a pessoa a acordar várias vezes.

• Síndrome das pernas inquietas, um distúrbio associado ao Sistema Nervoso Central, em que a diminuição da liberação de dopamina provoca movimentos involuntários dos membros inferiores, deixando o sono mais leve.

• Menopausa: a diminuição da quantidade de secreção dos hormônios femininos, estrógeno e progesterona, pode favorecer os distúrbios respiratórios do sono.

• Medicamentos para doenças cardiovasculares, pneumológicas e moderadores de humor podem excitar o Sistema Nervoso Central.