Dois passos à frente do câncer de mama.

A mamografia vive sendo discutida em pesquisas no mundo todo. Mas não é a única opção – e nem a melhor – para o diagnóstico precoce dos tumores na mama. A radiologista Maria Aparecida Murakami ajuda a entender melhor como se prevenir.

 

Estar à frente do câncer é sempre um desafio. No que diz respeito ao câncer de mama, um dos que mais matam mulheres em todo o mundo, as tecnologias de diagnóstico melhoram a cada dia e as pesquisas direcionadas ao aprimoramento dos protocolos de prevenção pipocam a todo instante. Se num dia um estudo desbanca a mamografia, no dia seguinte vem outro para reafirmá-la como a alternativa mais confiável no rastreamento dos tumores em estágio inicial.

 

A idade preconizada para realizar a mamografia também é uma fonte de discussão permanente. No Brasil, assim como na Europa, a recomendação atual do Instituto Nacional do Câncer é que mulheres entre 50 e 69 anos façam uma mamografia a cada dois anos. Mas essa não é a sugestão das sociedades médicas ligadas à área de mastologia, especialmente aqui e nos Estados Unidos: “Todas elas indicam que a mamografia seja realizada a partir dos 40 anos anualmente”, diz Maria Aparecida Murakami, radiologista da Clínica Célula Mater.

 

Enquanto a mamografia segue gerando polêmicas, que ganham as páginas de notícias, há outros exames disponíveis, muito menos falados, mas também importantíssimos no diagnóstico precoce e na redução da mortalidade do câncer de mama: a ultrassonografia, a tomossíntese e a ressonância magnética das mamas. Cada um com uma especificidade, vantagens e desvantagens. “Vejo que muitos médicos têm dúvidas sobre que exames indicar”, conta Maria Aparecida.
Se a própria comunidade médica se confunde, o que dirão as mulheres, as maiores interessadas no assunto? Na entrevista a seguir, Maria Aparecida ajuda a afastar a nuvem de perguntas.

 

Célula Mater Press: Afinal, por que a mamografia ainda gera tanta polêmica?

 

Maria Aparecida Murakami: A mamografia é uma radiografia, ou seja, funciona por radiação. Como a radiação é cumulativa, discute-se qual seria a melhor idade para começar o rastreamento, de forma que haja o maior benefício possível. Além disso, é um método que apresenta dificuldade em detectar tumores em mamas muito densas, o que acontece geralmente em pacientes mais jovens. No entanto, aqui, no Brasil, estatisticamente sabe-se que o câncer de mama aparece em idades mais precoces em relação a outros países. Por isso, as sociedades médicas ligadas à área indicam que a mamografia seja feita a partir dos 40 anos.

 

CMP: E quanto à frequência do exame? Ele deveria ser feito anualmente ou apenas a cada dois anos?

 

Maria Aparecida: A mamografia é capaz de detectar tumores em fases bastante precoces, porém, em jovens, os tumores podem evoluir com mais rapidez do que em idade mais avançada. Mesmo assim, alguns acreditam que, se realizada a cada dois anos, não faria diferença em relação à taxa de mortalidade. Mas, na minha opinião, o quanto antes detectado, melhor, porque isso se traduz em cirurgias menores, tratamentos menos agressivos, menores chances de recidiva e, portanto, uma qualidade de vida melhor para a mulher.

 

CMP: Qual é a diferença entre a mamografia e a tomossíntese?

 

Maria Aparecida: A tomossíntese é uma mamografia 3D – ou seja, ela é uma mamografia melhorada. Quando se observa a imagem em duas dimensões, como acontece na mamografia convencional, as estruturas se somam, e o tumor pode ficar escondido no tecido mamário. Como a tomossíntese mostra a mama em fatias, ela é capaz de diagnosticar cerca de 30 a 40% mais tumores que a mamografia convencional, além de gerar menos dúvidas e menos reconvocações. Há algum tempo, era um exame pouco indicado porque exigia o dobro de radiação. Mas atualmente esse problema foi corrigido, e a dose de radiação agora é a mesma da mamografia.

 

CMP: Isso quer dizer que a tomossíntese vai tomar o lugar da mamografia num futuro próximo?

 

Maria Aparecida: Isso praticamente já acontece em vários países.

 

CMP: E quanto ao ultrassom? Ele também pode auxiliar na detecção do câncer de mama?

 

Maria Aparecida: Ao contrário dos outros métodos de diagnóstico, o ultrassom é inócuo e portanto pode ser usado em todas as idades, inclusive na gravidez. Além disso, ele é de fácil acesso e bastante simples. Aqui, na Célula Mater, nós indicamos o ultrassom de mamas anualmente para todas as pacientes acima dos 40 anos, e antes disso quando há um risco aumentado. Sua desvantagem é que ele depende bastante do profissional que realiza o exame. Na minha opinião, é preciso que seja um especialista em mama e tenha experiência para observar as patologias da mama e como elas aparecem. Se for esse o caso, acho um método fantástico.

 

CMP: A ressonância magnética é um bom método para detectar tumores de mama?

 

Maria Aparecida: Há alguns anos, a ressonância não era tão recomendada porque apontava muitos falsos positivos. Mas isso mudou. Hoje, ela tem uma sensibilidade de 98%, e especificidade maior que a mamografia, por isso há muitos trabalhos científicos atuais apontando para esse método como uma boa alternativa. Ela tem algumas vantagens em relação à mamografia, porque, além de ter uma sensibilidade maior para detectar tumores na fase inicial, ela consegue mostrar os que têm maior chance de se tornar invasivos. Por enquanto, ela continua como mais um aliado para excluir casos em que há dúvidas nas outras modalidades, ou como parte do rastreamento para pacientes de alto risco.

 

CMP: E quanto aos testes genéticos? Quem deve realizálos e qual é a sua importância?

 

Maria Aparecida: Teoricamente, esses testes só são indicados para pessoas de alto risco (para melhor compreensão do risco, pode-se ter a ajuda de um geneticista) – ou seja, quem tem forte histórico de câncer de mama ou ovário na família, dentre outros fatores. Embora não sejam as únicas, as mutações nos genes BRCA 1 e BRCA 2 são as mais estudadas. Alguns relatos na literatura médica apontam que a presença de mutações deletérias nesses genes aumenta o risco de desenvolvimento de câncer de mama em até 85%. Estudos mostram que essas mutações são mais frequentes em mulheres judias de ascendência Ashkenazi (provenientes da Europa Central e Oriental) e, por isso, é recomendável que elas façam o teste. Realizar ou não o teste genético é, sem dúvida, uma escolha pessoal. No entanto, um resultado positivo pode ajudar as mulheres a entender o seu risco e capacitá-las a seguir um plano de rastreamento personalizado em conjunto com seu médico e possibilitando a elas tomar decisões que ajudem a reduzir o risco.

 

CMP: Com as evoluções nos exames e também na compreensão de como a genética influencia no aparecimento do câncer de mama, para onde você acredita que o futuro aponta em relação à prevenção da doença?

 

Maria Aparecida: Nas mulheres mais suscetíveis ao câncer de mama, existem formas de reduzir o risco. Porém a doença não é restrita a esse grupo. Na realidade, o maior número de pacientes acometidas não pertence a grupos de alto risco, e sim ao grupo de risco habitual. Portanto, todas nós estamos sujeitas a, em algum momento da vida, desenvolver a doença. A tendência tem sido personalizar o rastreamento e o eventual tratamento de cada mulher, conforme se tem maior compreensão de como o câncer evolui.

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