Mindfulness

O mindfulness é uma forma de meditação que reduz o estresse e a ansiedade, diminui dores, ajuda a combater diversas doenças e a retomar o prazer da vida. Você chega do trabalho e se senta para jantar. Enquanto mastiga, aproveita para responder a mensagens pelo celular, tenta pescar algo do telejornal, ajuda seu filho com a lição de casa e fica remoendo a bronca do chefe durante o expediente. Algum tempo depois, se dá conta de que não fez nenhuma dessas tarefas direito. E, como não poderia deixar de ser, está estressada e ansiosa com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Que atire o primeiro smartphone quem nunca passou por uma situação como essa. Nos dias de hoje, fica fácil justificar de bate-pronto que nem sempre é possível fazer as coisas com a concentração que gostaríamos, que isso é mais do que normal e que toda a facilidade que a tecnologia nos proporciona só nos traz benefícios. Mas, com um pouco mais de reflexão, é perceptível o fato de que dificilmente conseguimos realizar as tarefas da vida de maneira plena. Perdemos a chance de sentir de fato o sabor dos alimentos, curtir os momentos com os nossos filhos, trabalhar de maneira mais eficiente. Dar uma pausa nesse turbilhão, aprender a acalmar-se e fazer cada uma das nossas atividades com toda a atenção pode parecer uma missão impossível. E é aí que entra o Mindfulness – que, em português, significa “plenitude da mente”.

Herança do oriente

O Mindfulness foi criado em 1979 por Jon Kabat-Zinn, professor da Escola Médica da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos. Na época adepto do budismo, ele teve a ideia de aplicar seus conhecimentos, retirando qualquer cunho religioso, para auxiliar os pacientes da Clínica Médica da universidade, onde trabalhava como pesquisador. Criou então um programa chamado MBSR (Mindfulness Based Stress Reduction) e juntou-se a outros três especialistas para criar a Clínica de Redução do Estresse, Dores e Doenças. Logo, alguns pacientes que sofriam com dores crônicas, estresse e algumas outras doenças relataram que estavam com menos dor ou que conseguiram redirecionar sua atenção e responder de maneira diferente à dor, diminuindo o incômodo de maneira geral.

Existem inúmeras escolas de meditação, baseadas em técnicas orientais desenvolvidas há milênios. Muitas delas trazem benefícios já comprovados na redução do estresse e da ansiedade, além de auxiliar em uma série de males. O método Mindfulness desenvolvido por Kabat-Zinn uniu essa sabedoria milenar ao conhecimento científico ocidental, criando um programa de treinamento em que o participante recebe diferentes ferramentas para aprimorar intencionalmente sua habilidade de concentração no momento presente, o que o ajuda a perceber com mais clareza seus pensamentos, suas sensações e seus sentimentos, de maneira a sair do emaranhado habitual da mente. “Quando isso acontece, conseguimos estar plenamente em contato com a vivência do momento, sem responder a ela de forma automática, condicionada por experiências passadas ou pela projeção do futuro, o que não dá à pessoa a liberdade de escolha”, explica Vavi Königsberger, psicóloga clínica, especialista em coaching e meditação mindfulness, de São Paulo. “Ou seja: a pessoa se torna agente de sua vida e não reagente”, completa. Um dos pontos centrais do método é trabalhar o não-julgamento e a gentileza para com nós mesmos e com os que nos cercam: “Entre outras habilidades, aprendemos a aceitar o que a vida nos traz, mesmo quando se trata de coisas desagradáveis, e a agir diante das situações de maneira eficaz e serena”, conta Vavi.

Centenas de estudos científicos foram realizados para comprovar a ação do Mindfulness no tratamento de doenças. Numa meta-análise publicada em 2010 no Journal of Consulting and Clinical Psychology, os pesquisadores revisaram as conclusões de 39 estudos feitos com 1140 pacientes instruídos pelo método para o auxílio em diversas condições de saúde. As pesquisas mostraram uma redução significativa em sintomas como depressão e ansiedade. Os efeitos benéficos também foram corroborados por pesquisas neurológicas, que indicaram que o método promove o aumento da massa cerebral e o desenvolvimento de novos caminhos neurais — a chamada neuroplasticidade. Alguns grupos se especializaram até em aplicar o Mindfulness em gestantes. Numa pesquisa publicada no British Journal of Midwifery, os cientistas encontraram evidências encorajadoras de que o método pode ajudar a lidar com a dor durante a gravidez e o parto, além de ser um auxiliar na prevenção de depressão pós-parto e de aumentar o nível de atenção no cuidado com o bebê. São essas e outras evidências que, quem sabe, darão o empurrãozinho que faltava para tomarmos atitudes que nos ajudem a lidar com mais presença e cuidado com nós mesmos diante dos vários estímulos do dia a dia.

Como funciona o treinamento

O programa pode ser feito sozinho ou em grupo e consiste em encontros semanais de duas horas durante oito semanas, além de um encontro de seis horas no meio desse período. Técnicas de respiração, escaneamento corporal e movimentos derivados de outras escolas, como ioga e Feldenkreis, são algumas das ferramentas usadas para promover a concentração.

Além do treinamento in loco, os participantes levam lição para casa e são orientados a participar de novos encontros com frequência e a meditar todos os dias, além de tentar aplicar a filosofia Mindfulness no seu cotidiano sempre que possível. “A mente funciona como os músculos, ou seja, precisa ser treinada de maneira continuada para evoluir e para manter a sua capacidade”, compara Vavi. Ou seja, sem a prática, não há milagre. Com o tempo, a meditação passa a acontecer naturalmente, sem exigir tanto esforço do indivíduo – mais ou menos o que acontece quando começamos a aprender a dirigir e ficamos ansiosos com a nova situação, mas, depois, nem nos damos conta de como viramos a direção ou trocamos as marchas.

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