Ritual de Passagem

Mulheres, tremei. Seus ovários podem estar se preparando para se aposentar, na surdina, e você nem sequer desconfia. Bem, para falar a verdade, não é tão na surdina assim. Se prestar atenção, você pode notar um ou outro sinal de que algo está diferente. Seus ciclos podem ter ficado mais curtos. Sua TPM pode ter voltado a níveis estratosféricos, como costumava ser na adolescência. As noites insones podem ter se tornado frequentes. Seu humor talvez esteja um tanto quanto errático. A lista de sintomas é vasta – e não quer dizer que você vai sentir tudo o que está nela. Mas, para tratá-los, existe uma janela de oportunidade. Ou seja, fique de olho e procure a orientação médica para não ser pega de saia curta.

Para entender melhor, vale primeiro esclarecer: a menopausa, um nome a que tantos se referem para designar a fase em que a mulher não pode mais engravidar, é na verdade uma data específica. Trata-se do dia da última menstruação – que só pode ser determinado um ano depois que a mulher ficou sem menstruar. A chamada perimenopausa compreende a transição para a fase não reprodutiva. Transição essa que pode ser bastante longa. “Ela dura, em média, dois anos, mas alguns sintomas podem surgir até mesmo dez anos antes da última menstruação”, explica Fernanda Deutsch Plotzky, ginecologista e obstetra da Clínica Célula Mater.

É durante essa adaptação gradual do organismo ao novo cenário hormonal que os incômodos costumam surgir. E não estamos falando apenas das famigeradas ondas de calor. Depressão, insônia, irritabilidade, dores de cabeça, ganho de peso, queda da libido, dificuldade de concentração, secura vaginal… Há, de fato, diversas facetas desagradáveis da perimenopausa (veja a seguir). E, se algumas felizardas transitam por essa passagem incólumes, outras a atravessam com um grau considerável de sofrimento, tanto físico quanto emocional.

A ginecologista Fernanda, que há alguns anos vem se especializando em cuidar de pacientes nessa fase, não titubeia ao admitir que o impacto é grande: “Você chega perto dos 50, com uma vida mais estável pessoal e profissionalmente, e agora pensa, ‘vou curtir’, mas então descobre que já não é possível curtir do mesmo jeito. É cruel”. “O que mais prejudica a mulher é ficar se agarrando a um modelo de uma fase anterior”, aponta Maria Célia Abreu, psicóloga e coordenadora do Ideac (Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico). Autora do livro Velhice, uma nova paisagem, ela assume que a escolha de abordaresse provoca um efeito desagradável: “É um tema tabu tanto social quanto culturalmente”. E de onde vem esse preconceito? “De um conceito judaico-cristão antigo e muito impregnado de que a mulher quase que existe só para ter filhos. Hoje não é mais assim, pois ela vai viver muito depois que não poder mais ter filhos, e isso é novo”, lembra.

Maria Célia faz questão de reiterar que as mudanças acontecem em muitos momentos – e adaptar-se a elas não é privilégio de quem chegou aos 50 anos: “A vida é cheia de etapas. E uma não é melhor do que a outra, é apenas diferente. Não necessariamente é melhor ser adolescente que ser criança, não necessariamente é melhor ser moço do que ser velho. Depende da história de vida de cada um e do enfoque que cada um dá para o estar vivo”. Para Maria Célia, os aspectos emocionais dessa fase de transição também merecem cuidado. Ela ressalta que se informar e trocar experiências com outras mulheres que passam pelo mesmo processo são algumas das atitudes que podem suavizar as lombadas do caminho. E dar apoio para que se possa fazer uma escolha fundamental: enxergar o “lado cheio” do copo. “Para algumas, parar de menstruar significa a perda da feminilidade. Para outras, pode ser a liberdade.” Escolha que se aplica a vários outros aspectos da maturidade. Como a sexualidade: “O sexo genital vai deixando de ter importância e a erotização e a sensualidade vão se tornando mais presentes. Isso você consegue de várias formas”, ensina a psicóloga. Enquanto procurar auxílio psicológico e um grupo de apoio para desabafar e ouvir outras experiências dá suporte para os desafios emocionais, do ponto de vista físico, é consenso dos médicos que as terapias de reposição hormonal podem ajudar bastante. Mas Fernanda alerta que o tratamento não é para todo mundo. “Tem mulheres que passam por esse período bem, de uma forma pouco sintomática. Para essas, a terapêutica não tem razão de ser”, opina. Para aquelas que sentem um prejuízo real na qualidade de vida, há uma série de fatores a serem analisados. O tratamento é contraindicado para quem é diabético e não controla a doença, tem doença hepática ou renal aguda, hipertensão severa, teve câncer de mama, de endométrio ou melanoma, e para pacientes com tendência a trombose. A escolha do melhor momento para fazer a reposição tampouco é simples. Pode ser tanto durante a perimenopausa quanto algum tempo após a menopausa.

“Em geral, a janela de oportunidade para iniciar o tratamento é de mais ou menos cinco anos depois do início dos sintomas. Depois que ela se fecha, não volta a se abrir”, explica a médica. Portanto, uma paciente que teve a menopausa há alguns anos, e não sente mais os sintomas, não vai se beneficiar da reposição hormonal. “Os receptores de hormônios não estão mais ativos, e então o corpo não responde mais. Aí você tem o aumento do risco sem ter o beneficio”, pondera. Fernanda também reitera que existem várias formas de administrar os hormônios – a via transdérmica, a via endovaginal, a via oral. Cada uma tem suas indicações específicas. “É como se fosse uma fechadura. Costumo dizer que a gente tem um molho de chaves na mão, e consegue saber mais ou menos qual é a melhor chave de acordo com doenças prévias, os sintomas e com o que é mais importante para a paciente. Às vezes, é preciso tentar algumas alternativas para ver o que se adapta melhor.” Para aquelas mulheres que temem os efeitos colaterais da terapia hormonal, Fernanda reitera que é preciso que cada caso seja bem avaliado. “Alguns estudos demonstraram riscos elevados de AVC e infarto, mas depois viu-se que isso acontecia em casos em que não havia indicação para o tratamento”, conta ela. “Hoje sabemos que ela é relativamente segura quando bem indicada.”

De qualquer maneira, até hoje não existe nenhuma fórmula mágica da juventude. “Por mais que a gente tente tratar, o viço da pele não vai ser o mesmo, as ondas de calor podem acontecer independente do tratamento, a lubrificação vaginal não vai ser a mesma, então existe um esforço ainda muito importante da indústria farmacêutica para desenvolver algo melhor e mais eficaz”, conta Fernanda, lembrando que já existem outras alternativas para tratar questões específicas. “O laser vaginal melhora bastante a atrofia vulvar, por exemplo.” E, é claro, não dá para esquecer as recomendações de sempre: manter uma dieta saudável e praticar atividades físicas – se você ainda não aderiu a elas, não é tarde para começar.

Sejamos francos: a lista dos sintomas da perimenopausa é de lascar. “Mas raramente alguém passa por tudo isso”, diz Fernanda. Se você tiver muitos deles, sua qualidade de vida está em jogo. Talvez seja o caso de discutir uma terapia de reposição hormonal com seu médico. Dependendo dos sintomas que forem mais expressivos para você, ele poderá ajudá-la na escolha do melhor método de tratamento.

Fogachos

É o sintoma mais típico de que sua produção de estrógeno está oscilando e resulta da dilatação repentina dos vasos sanguíneos. O calor perdido em alguns minutos pelo corpo, nessa onda dilatadora, produz frio ou suor intenso logo em seguida. A sensação pode variar bastante de mulher para mulher: algumas sentem um leve calor, outras precisam tirar o casaco em pleno inverno.

Depressão

Mulheres na pré-menopausa têm 2,5 vezes mais chances de entrar em depressão do que em outras fases da vida. Após o primeiro ano de climatério, o risco de depressão começa a cair.

Insônia

O estrogênio atua no relógio biológico da mulher, e o desequilíbrio na sua produção pode levar a distúrbios do sono. As ondas de calor também costumam chegar de madrugada e atrapalhar o sono. Quando esses episódios se tornam frequentes, é importante procurar ajuda para que esse não se torne um problema crônico. 

Tontura

Embora as causas ainda sejam desconhecidas, episódios súbitos de tonturas e perda do equilíbrio costumam se tornar mais frequentes na perimenopausa.

Secura vaginal

Os tecidos que revestem a vagina devem seu vigor ao estrogênio. Sem ele, começam a atrofiar. A lubrificação fica comprometida e o ato sexual pode ficar dolorido já nesse período.

Queda da libido

Se você não tem mais aquela vontade de antes, não dá para culpar apenas os hormônios.Sim, eles interferem bastante no desejo sexual, mas lidar com as mudanças internas e os fatores externos, como o estresse naturais dessa fase da vida e as dificuldades de relacionamento com o companheiro, também influencia a sexualidade

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