Tem que ter peito!

A cena de um bebê sugando o seio da mãe costuma desencadear muita ternura entre os seus espectadores. Mas, se o pequeno já for mais crescidinho, com uns 2, 3 anos ou mais, há grandes chances de que algumas pessoas que estejam por perto torçam o nariz e ainda façam críticas e piadas sobre o que estão vendo. De fato, pode parecer estranho que uma criança que já come de tudo, fala, frequenta a escola e se relaciona socialmente fique atrelada ao peito materno. Mas será que isso é mesmo ruim? Ou será que pode trazer benefícios? A verdade é que não há uma resposta pronta a essa pergunta. Existem fatores que pesam a favor da amamentação tardia. Muitos especialistas defendem a teoria de que, mesmo quando a criança é maior, a sensação de aconchego pode ajudá-la a enfrentar a vida com mais segurança. E não há dúvidas de que a sua saúde também sai ganhando. Um estudo feito na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, mostrou que, quanto mais uma criança mama, melhores tendem a ser a fala, o raciocínio e o desenvolvimento cognitivo. As conclusões dos cientistas americanos foram reforçadas por outra pesquisa realizada na Escola de Medicina de Christchurch, na Nova Zelândia, que mostrou que amamentar por mais tempo favorece o desenvolvimento do cérebro e do sistema nervoso. 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) também apoia o aleitamento prolongado e defende a ideia de que os pequenos devem tomar leite materno até pelo menos os 2 anos de idade, pois, mesmo nessa fase, o líquido ainda oferece muitos nutrientes: 95% das necessidades diárias de vitamina C e 45% da vitamina A, além de continuar protegendo o pequeno de doenças infecciosas. Para as mães, também há benefícios comprovados: uma pesquisa publicada no periódico científico American Journal of Obstetrics & Gynecology mostrou que as mulheres que alimentam seus filhos no peito por alguns anos tendem a ter uma melhor saúde cardiovascular e menos chance de desenvolver diabetes.

Mas, para tomar a decisão da hora certa de tirar o peito, outros fatores também devem ser pesados na balança. “A vontade de ter mais filhos, por exemplo, precisa ser levada em consideração nesse caso, já que a prolactina, hormônio que tem sua fabricação estimulada pela sucção, pode alterar o ciclo menstrual”, lembra Paula Vilela Gherpelli, ginecologista e obstetra.. “Também é muito importante para a saúde mental e emocional da mãe que ela retome a sua vida profissional, social e conjugal, o que fica mais difícil se ela precisa estar próxima ao filho em determinados horários para dar o peito”, opina Lisiane Hoyos, enfermeira obstétrica da Célula Mater. A psicóloga Talita Pryngler, especialista na fase dos 0 aos 3 anos,  a coordenadora do Espaço Bebê, do Clube A Hebraica, em São Paulo, também acredita que cada caso deve ser analisado isoladamente. “A amamentação tardia pode ser benéfica, mas desde que ela seja uma opção da mãe, e não uma saída rápida e fácil de se relacionar com a criança, acalmá-la e fazê-la dormir”, pondera. “A mulher acaba entrando em um ciclo vicioso no dia a dia e fica tão cansada que acaba não tendo disposição para desenvolver outras formas de lidar com o filho”, explica Talita, sublinhando que isso pode atrapalhar o desenvolvimento emocional da criança e fazer com que ela tenha mais dificuldade para se vincular a outras pessoas, inclusive o pai. Além do que, Talita lembra que o aleitamento tardio pode ser o sinal de uma dificuldade para colocar limites na criança. Tudo isso sem falar que a mulher fica sujeita a situações que podem deixá-la envergonhada, como ter o seio exposto em público de surpresa, pois a criança maior já tem destreza para retirá-lo de dentro da sua roupa. 

A hora certa de parar 

Não há uma idade determinante para que a mãe deixe de amamentar o seu filho. Mas por volta de 1 ano esse vínculo pode ser cortado sem maiores problemas. “Nessa fase, o sistema imunológico da criança já está maduro, assim como o seu sistema digestivo, o que diminui as chances de uma alergia ao leite de vaca”, diz Lisiane Hoyos. “Além disso, nesse momento o pequeno já começa a ficar mais independente física e emocionalmente”, acrescenta Talita. O ideal é que o aleitamento não seja retirado de maneira repentina. “Ele deve diminuir de forma gradativa e, como o estímulo da sucção vai ser menor, a fabricação do leite também vai caindo, explica Lisiane. “Quando a mulher considerar que chegou a hora de tirar o peito de vez, ela deve ser firme e não voltar atrás, pois, do contrário, a criança percebe que há uma brecha para conseguir retomá- lo”, afirma Paula Gherpelli.

Se a criança oferecer resistência, a mãe deve explicar ao filho que ele já cresceu e não precisa mais do peito, pois consegue se alimentar de outra forma. “Também é recomendado que ele receba outras formas de aconchego e a mãe não deixe de dedicar tempo e atenção a ele”, diz Talita. “O auxílio do pai para dividir os cuidados é mais do que bem-vinda e até mesmo uma ajuda profissional pode entrar em cena para que a mulher se fortaleça nesse momento”, acrescenta a psicóloga. O mais importante é que a mãe não deve se culpar por amamentar por mais tempo, por não conseguir fazer isso, apesar de querer, ou mesmo por ter vontade de cortar esse vínculo para retomar outros aspectos da sua vida além da maternidade. Nesse assunto, como em tantos outros, não há certo ou errado.

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