As mamães abrem o bico

Os canais digitais feitos para descomplicar a vida das mães, ajudá-las a rir de si mesmas ou dar colo nas horas difíceis.

Tem para todos os gostos: mamães fashion, mamães obsessivas, mães solteiras, caretas, desencanadas, politizadas… Os canais digitais sobre maternidade se reproduzem feito coelhos. Elas estão nos podcasts, blogs, YouTube, Facebook, Instagram, Snapchat, Pinterest e onde mais houver público para dizer às mulheres que decidiram embarcar na viagem de ter filhos: você não está sozinha.

Para ouvir sobre como usar fraldas de pano, aprender dicas de roupas para amamentação, ventilar sugestões do que fazer quando seu querido filho se transforma num monstro birrento ou apenas escutar relatos que a façam pensar, ‘‘Ufa, então não é só comigo’’, os canais digitais viraram uma poderosa ferramenta de criação de redes entre as mamães de diferentes cantos e crenças. Se não é uma companhia de fato, a internet pode quebrar um galho e tanto numa fase em que muitas reclamam de isolamento e se sentem asfixiadas por dúvidas sem fim.

São milhares de mulheres conectadas, tagarelando sobre qualquer assunto que lhes dê na telha. ‘‘Eu falo sobre quase tudo. Já falei sobre minha depressão pós-parto, dificuldades no casamento, problemas de saúde das crianças. Só evito expor muito meu marido porque ele não gosta’’, conta a publicitária Shirley Hilgert, 39 anos, criadora do Macetes de Mãe. Seis anos depois de sua estreia, a gaúcha de Ibirubá registra 742.518 seguidores no Facebook e 152 mil inscritos no YouTube.

Descomplicar e desrromantizar são as palavras de ordem. Elas não têm medo de entrar em polêmicas nem pudor de abordar assuntos tabu. ‘‘Amo meu filho, odeio ser mãe’’ é o título de um dos vídeos do canal Hel Mother, da jornalista Helen Ramos, cujo sucesso do canal rendeu a série Mãe Possível, no GNT. Ou então: ‘‘Qual é o problema de não gostar de sentar no chão e brincar com meu filho?’’, pergunta a socióloga Ana Saraiva numa entrevista ao podcast Sinuca de Bicos.

Essa troca de informações favorece os dois lados. ‘‘Já tive a experiência de estar redondamente errada com relação a algum assunto e o comentário de uma seguidora me fez parar, refletir e mudar de ideia e discurso. Ou seja, eu sempre ganho mais do que perco’’, conta a brasiliense Luíza Diener, 33 anos. É dela o blog Potencial Gestante, que apareceu antes mesmo de Luíza engravidar e hoje soma 236.102 seguidores no Facebook.

‘‘Meu blog surgiu sem planejamento, a partir do desejo de me tornar mãe. Abri o canal e fui escrever sobre o que eu idealizava sobre a maternidade. Quando vi, já tinha cativado um público, que também me cativou, e daí comecei a investir nos conteúdos’’, revela a blogueira, que adota a leveza como uma técnica de comunicação. Ela também costuma entrevistar suas seguidoras para abordar temas delicados, como num de seus posts recentes, com o título ‘‘Coisas que não dizemos aos pais de um bebê prematuro’’, listando 26 frases infelizes que as mães ouviram de pessoas bem-intencionadas.

O problema é quando as influenciadoras digitais se aventuram a dar palpites em questões médicas. ‘‘Os blogs de maternidade trazem um bônus e um ônus proporcional para a sociedade’’, pondera a ginecologista e obstetra Fernanda Deutsch Plotsky, da Clínica Célula Mater. Segundo a médica, quem segue esses canais precisa manter o bom senso.

Tricô Digital

Tem mãe sonhadora e mãe que não romantiza nada. Mãe engajada em política e cidadania e mãe preocupada com moda, viagens com crianças e outros assuntos mais leves. Veja alguns dos blogs que fazem sucesso.

A Maternidade por Rafaela de Carvalho: Em sua página no Facebook, a blogueira Rafaela de Carvalho fala de maternidade com dicas práticas e em tom poético. Publicou o livro 60 Dias de Neblina, em que escreve com delicadeza sobre como enfrentar os primeiros 60 dias com um bebê recém-nascido em casa.

Flávia Rubim: Mãe da garotinha Cora, 3 anos, a atriz e apresentadora tem quase 66 mil seguidores no Instagram, onde retrata sua vida familiar e as fortes emoções vividas com a gravidez atual, de gêmeos. Com fotos produzidas e textos escritos na primeira pessoa, ela arranca elogios até de seguidoras que ainda não são mães.

Hel Mother: A jornalista Helen Ramos opina sobre os dilemas da maternidade ‘‘na real’’, sem romantização e com humor de sobra. Mãe em carreira solo de Caetano, 3 anos, ela também fala de cultura, indicando filmes e livros, e dá dicas de consultório sentimental para as mães solteiras que querem voltar a namorar.

‘‘Como as influenciadoras digitais escrevem e falam aquilo que querem, o público nem sempre consegue descobrir se a informação veio de uma fonte fidedigna ou se é achismo.’

No consultório, Fernanda recebe muitas gestantes à procura de um blog que ajude com dúvidas pontuais da gravidez. ‘‘Elas querem saber tudo o que acontece ao longo dos nove meses, mas muitas também vêm conferir informações que viram em blogs – e, quando isso acontece, é maravilhoso’’, conta a médica. ‘‘O problema é quando elas não vêm checar.’’ O uso de anticoncepcionais, por exemplo, já foi motivo de discussão. ‘‘Muitas vezes, eu discordo radicalmente do que a paciente leu ou ouviu na internet. Ninguém pode sair por aí tomando comprimido a torto e direito porque a blogueira falou’’, alerta. ‘‘Existe uma série de restrições que vão depender de cada mulher. Escolher anticoncepcional não é como escolher bala no supermercado.’’

Para fugir dessa armadilha, a designer Renata Calazans Pires, 38 anos, e a administradora de empresas Juliana Freire Silveira, 39 anos, fundadoras do canal Just Real Moms, adotaram uma estratégia diferente: ‘‘Prestamos um serviço para mães sem nos concentrar nas nossas experiências pessoais. Temos colunistas especializados, como pediatra, psicóloga, dermatologista e fonoaudióloga, que nos dão respaldo e falam com propriedade sobre assuntos que não poderíamos falar, esclarecendo as nossas dúvidas e as de outras mães’’, diz Renata. Ambas paulistanas, as duas são amigas e tiveram filhos na mesma época. ‘‘Ficamos três meses escrevendo matérias para já lançar o site com um conteúdo relevante e a resposta das leitoras foi imediata.’’ Hoje a dupla soma 817.080 seguidores no Facebook, além de 37 mil inscritos no YouTube.

Renata conta que os dois assuntos campeões de polêmicas são o tipo de parto e a amamentação. ‘‘Evitamos entrar em conflitos. Sabemos que cada mãe tem sua escolha e nem sempre ela consegue fazer o que estava programado por diversos motivos. Procuramos respeitá-la e com isso não levantamos nenhuma bandeira do que é certo ou errado.’’ Quem não gostar que clique em outro.

Tricô Digital

Isa Minatel: Consultora de família e psicopedagoga, Isa dá dicas a mães, pais, avós e professores. Também é autora do livro Crianças Sem Limites – Educação Empreendedora na Primeira Infância (Editora Chiado). Em seu canal no YouTube, a especialista ensina como dar broncas, a maneira certa de influenciar uma criança sem usar a violência e o que fazer quando os filhos querem mandar nos pais, entre outras lições.

It Mãe: Criado em 2012 pela jornalista Daniela Folloni, a plataforma ajuda as mães a fazer escolhas inteligentes, compartilhar dilemas e encontrar inspiração em outras mães, além de achar ideias e os melhores serviços para facilitar o dia a dia.

Just Real Moms: As amigas Renata Pires e Juliana Silveira ficaram grávidas ao mesmo tempo e decidiram criar o site com foco em mães e pais de todas as tribos, grávidos ou com filhos pequenos. No blog e em outros canais, como o YouTube, elas esclarecem suas próprias dúvidas – e a de milhares de mães -, oferecendo conteúdo exclusivo e produzido com o apoio de colunistas especializados (como pediatras, psicólogas e fonoaudiólogas).

LookBebê: No blog, Ana Lu Masi fala sobre gravidez, maternidade e família. Dá dicas de amamentação e cuidados com o corpo, ensina a tirar a chupeta das crianças, sugere roteiros de viagens com os pequenos e indica eventos para quem busca o lado mais leve da maternidade, além de ensinar a montar um guarda-roupa infantil.

Macetes de Mãe: Em seu blog, a publicitária Shirley Hilgert conversa com mães de recémnascidos e crianças de até 3 anos, dando dicas práticas sobre a criação de filhos e mil outros assuntos relativos à vida materna. Atualmente, ela vem usando o espaço – e outras plataformas, como o YouTube – para conversar também com mães de filhos mais velhos que buscam se reencontrar.

Mãe de Primeira Viagem: A apresentadora, atriz e jornalista Silvia Faro tem 66 mil seguidores no YouTube, onde criou em 2010 o programa Mãe de Primeira Viagem. Seus vídeos trazem conteúdo sobre o universo materno (especialmente para mães iniciantes), feminino e familiar. Silvia também entrevista mães famosas e dá dicas de produtos, novidades e eventos.

Mamatraca: A plataforma está desde 2011 no ar. A artista, ativista, feminista e youtuber Anne Rammi foca a construção da cidadania e as boas reflexões sobre a maternidade. Entre seus posts recentes, há temas do tipo ‘‘Como banir o refrigerante da escola do seu filho’’ e ‘‘Mães fecham a Paulista em protesto por comida de verdade na merenda escolar’’.

Mamis na Madrugada: Criar laços e desatar nós. Esse é o propósito do site segundo suas criadoras, a psicóloga Vanessa Abdo Benaderet e a publicitária Daniella Zaccai Somekh. Para oferecer conteúdo exclusivo, a dupla reúne um time de colunistas. Tem médica endocrinologista, dermatologista e até advogada (quando o tema é pensão alimentícia da criança, por exemplo). Na aba ‘‘empório’’, as mães podem anunciar seus trabalhos. E, na seção ‘‘teens’’, há informações variadas, como ‘‘corrimento vaginal’’ e ‘‘quando falar de sexo com seus filhos’’.

Potencial Gestante: Luíza Diener aborda situações cotidianas com bom humor e temas difíceis com delicadeza. Interage com mães de todo o país, ensinando e aprendendo sobre a maternidade. Adora combater a culpa de muitas mulheres por não serem ‘‘mães perfeitas’’” (‘‘Daquelas que mantêm a vida dos filhos sempre com os horários nos eixos e a casa impecável’’).

Sinuca de Bicos: Quinzenalmente às terças, mulheres se reúnem na mesa para falar sobre os desafios e questões da maternidade. Mercado de trabalho, Dia das Mães, parceria com o companheiro e o mito da mulher superior são alguns dos assuntos tratados recentemente.

Fonte: Revista Célula Mater Press, edição 18, 2018

Editora Responsável
Débora Mamber Czeresnia

Reportagem
Débora Mamber Czeresnia
Lídice Ba

Ilustrações
Bianca Beneduci

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