Dormindo com o inimigo

O crescimento de casos de doenças sexualmente transmissíveis leva os médicos da Célula Mater a indicar o teste para gonorreia e clamídia todos os anos, além do papanicolau.

Ao ouvir uma professora falando em sala de aula sobre as doenças sexualmente transmissíveis, você pode achar que está apenas diante de mais uma enxurrada de informações que precisará decorar para a próxima prova. São nomes, causas e sintomas de problemas que você tem certeza que nunca a atingirão, igualzinho àquela fórmula de química que você pretende esquecer para sempre assim que passar no vestibular.

Só que não é bem assim. Se a sua vida sexual já começou, é melhor prestar atenção no que diz a professora.

Dados revelados nos Estados Unidos e no Brasil comprovam que as DSTs estão bem pertinho e algumas que pareciam ter virado só um verbete de livros de medicina estão voltando com tudo.

O relatório do Centro de Controle de Doenças (CDC) americano, mostra que casos de sífilis, gonorreia e clamídia bateram recordes em 2015. De acordo com os dados, houve 1,5 milhão de casos de clamídia (aumento de 6%), 400 mil de gonorreia (aumento de 13%) e 24 mil de sífilis (crescimento de 19%).

DSTs no Brasil

No Brasil, não é diferente. Também em outubro, o Ministro da Saúde admitiu que o país vive uma epidemia de sífilis, com quase 230 mil casos novos da doença notificados entre 2010 e 2016. A maior parte deles ocorre no Sudeste. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, nos últimos seis anos as ocorrências cresceram 603%. E os números indicam que a vulnerabilidade das mulheres está aumentando.

Em 2010, a incidência da doença em homens era maior – cerca de 1,8 caso para cada caso entre mulheres. Essa média caiu para 1,5 homem/mulher em 2015.

Segundo o infectologista Caio Rosenthal, são muitos os fatores que levaram a esse aumento. Em primeiro lugar está a despreocupação em relação ao uso de preservativos, causando aumento não apenas no número de casos de sífilis mas também de novas infecções pelo HIV.

“Colaborou também para o aumento a baixa procura aos centros médicos, uma vez que a sífilis é uma doença quase silenciosa e, na maioria das vezes, passa despercebida”, ressalta.

Para Rosenthal, médicos despreparados se esquecem de suspeitar do diagnóstico e, portanto, de solicitar exames tão simples hoje em dia, como os testes rápidos que, em 30 minutos, dão diagnóstico de sífilis, HIV, e hepatites B e C.

“Também há a questão da busca do parceiro contaminado para diagnóstico e tratamento para interromper a cadeia de transmissão, que raramente é motivo de preocupação das autoridades de saúde”, pondera.

Por último, é preciso lembrar que houve no mundo inteiro desabastecimento do principal e mais efetivo medicamento para o tratamento das sífilis, que é a penicilina benzatina — cujo nome comercial é o Benzetacil.

DST líder no Brasil

A clamídia, no entanto, é a grande líder no ranking de DSTs no Brasil, com nada menos que 1,9 milhão de casos por ano, de acordo com estimativas da Organização Mundial de Saúde.

A maioria das vezes assintomática, a bactéria fica alojada silenciosamente no corpo e, se não detectada e tratada, pode causar infertilidade.

“Por esses motivos, nós, da Célula Mater, temos indicado há algum tempo que as pacientes façam, além do papanicolau, teste para gonorreia e clamídia cervical anualmente”, revela a ginecologista e obstetra Mariana Schiffer Acar.

A médica admite que essa não é uma recomendação preconizada pelo Ministério da saúde nem pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Mas, diante do quadro preocupante, vale esse cuidado extra.

Por trás desses dados, está uma geração bastante ativa sexualmente e que não se sente mais impactada por campanhas que pregam o uso da camisinha.

Quase quatro em cada dez brasileiros de 18 a 29 anos ouvidos na pesquisa “Juventude, Comportamento e DST/Aids”, que entrevistou 1 208 pessoas nessa faixa etária em 2012, admitiram não usar preservativo em sua última relação.

“Por trás dessa despreocupação, está o fato da aids ser agora uma doença crônica, mas controlável – e, portanto, com menor visibilidade para a população”, diz Rosenthal. Ele acrescenta ainda que o uso de métodos anticoncepcionais de longa duração também contribuiu para menor adesão do uso do preservativo.

Pode até parecer que os nomes das bactérias e das doenças sejam um estorvo a mais para recordar antes da prova de biologia. Mas lembrar do uso da camisinha é bem mais simples – e com implicações muito mais importantes do que uma nota baixa.

Veja a seguir, o básico do básico sobre as DSTs mais comuns:

Clamídia

Causador: Bactéria chlamydia trachomati

Sintomas: Na maioria dos casos, é assintomática. Mas pode causar inflamação na próstata (prostatite) e no epidídimo (epididimite), nos homens e, nas mulheres, em todo trato genital, colo do útero (cervicite), útero (endometrite) e ovários/tubas (salpingite) – o que aparece como uma dor durante a relação sexual e corrimento abundante.

Também aparece na forma da chamada doença inflamatória pélvica aguda, uma dor abdominal intensa, às vezes acompanhada de febre.

Tratamento: A clamídia também é bastante suscetível ao tratamento com antibióticos. Mas, como costuma ser assintomática, pode ficar alojada silenciosamente no corpo, danificando as tubas uterinas e os ovários. Só será descoberta quando a mulher tentar engravidar e não conseguir.

Prevenção: Como ela fica alojada dentro do colo do útero, ou da uretra, a única forma de transmissão é via penetração. Ou seja: com o uso da camisinha, dificilmente haverá o contágio.

 

Gonorreia

Causador: Bactéria Neisseria Gonorrhoeae, também conhecida como gonococo 

Sintomas: Bastante parecidos com os da clamídia, porém, ao contrário dela, geralmente apresenta sintomas pouco tempo após o contágio. Quando a inflamação aparece no colo do útero (a chamada cervicite), costuma ser mais purulenta. Pode se infiltrar em outras partes do corpo, provocar artrite gonocócica, ou ainda outras manifestações mais abundantes.

Tratamento: É de fácil tratamento com antibióticos, embora nos Estados Unidos estejam aparecendo casos resistentes aos remédios convencionais.

Prevenção: Uso de camisinha

 

Sífilis

Causador: Bactéria Treponema pallidum

Sintomas: Na sífilis primária, a bactéria forma uma pequena úlcera na região genital. Como é indolor, muitas vezes passa despercebida. E aí mora o problema: é nessa fase que costuma ocorrer o contágio.

Mesmo sem tratamento, a ferida desaparece, mas a bactéria continua alojada no organismo por tempo indefinido.

Cerca de seis meses depois, aparece a forma secundária da doença: uma lesão na pele, que pode surgir em qualquer lugar, mas costuma aparecer principalmente na planta dos pés nas palmas das mãos.

Caso não seja tratada, a bactéria fica novamente em fase latente, que pode durar anos, até surgir a sífilis terciária.Ela provoca lesões nos ossos, no coração e até no Sistema Nervoso Central.

Tratamento: Quanto antes detectada, mais fácil o tratamento. Por isso é importante realizar o teste com frequência, evitando a evolução da doença.

Na fase primária, a bactéria morre facilmente com penicilina intramuscular ou endovenosa. Nas fases seguintes, é preciso aumentar a dose do antibiótico. Lembrando que os parceiros também devem ser tratados.

Prevenção: Uso de camisinha. Como ela pode ser transmitida da mãe para o bebê durante o parto, provocando uma série de complicações, é essencial detectá-la e tratá-la na gravidez.

 

HPV

Causador: Papilomavírus humano. Estima-se que de 80 a 90% das pessoas sexualmente ativas terão HPV em algum momento da vida.

Sintomas: Na maioria das vezes assintomático, mas também pode provocar o aparecimento de verrugas na região genital.

Existem muitos tipos de HPV. Grande parte das vezes, ele é eliminado pelo organismo, que cria imunidade contra o tipo específico com o qual houve o contato. Porém algumas vezes não se consegue eliminá-lo – e então, com o passar dos anos, os tipos mais agressivos podem provocar câncer de colo de útero, de vagina e de vulva.

No homem, pode levar a tumores de cabeça, pescoço, pênis e ânus.

Tratamento: Quando se detecta um tipo de HPV mais invasivo, é preciso retirar a lesão e fazer uma biópsia do colo do útero. Depois disso, segue-se acompanhando com um papanicolau a cada seis meses, para verificar se o corpo vai conseguir eliminar o vírus sozinho ou se há a necessidade de um acompanhamento mais completo.

Caso haja uma lesão avançada, será preciso retirar um pedaço do colo do útero, via cirurgia, o que pode trazer complicações para uma gravidez.

Prevenção: A vacina contra o HPV é indicada para todas as meninas dos 9 aos 13 anos de idade.

Porém só protege contra quatro tipos do vírus. O HPV pode ser transmitido por penetração, ou também via sexo oral ou apenas o contato da pele/mucosa com a verruga.

No entanto, os tipos mais perigosos do vírus costumam ficar nas mucosas internas – e portanto a camisinha serve sim de barreira contra eles.

Como o câncer leva cerca de dez anos para se desenvolver, o papanicolau é essencial para detectar o vírus, antes que possa causar danos maiores.

 

Fonte: Revista Célula Mater Press, edição nº 15, página 10, 2016.

Expediente

Responsável Técnico: Carlos Eduardo Czeresnia – CRM 20245

Conselho editorial: Equipe médica Célula Mater

Editora responsável: Débora Mamber Czeresnia

Reportagem: Débora Mamber Czeresnia

Direção de arte: E-Made Comunicação

Revisão de texto: Paulo Kaiser

 

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