Caça aos vazamentos

O parto normal sempre foi o bode expiatório de quem tem incontinência urinária. Mas você sabia que estresse, constipação e até medicamentos para emagrecer também têm culpa no cartório? 

O problema atinge uma em cada quatro mulheres acima dos 50 anos e pode, sim, ser tratado.

Em se tratando de incontinência urinária, a regra é a inibição. A grande maioria das mulheres que sofre com o pinga-pinga nem sequer conversar sobre o assunto com seu médico. 

“Elas acham que é um mal da idade, ou que é inevitável depois de ter filhos, e não se sentem à vontade em falar sobre o assunto até com as amigas”, conta Miriam Dambros, urologista da Clínica Célula Mater.

Em meio a essa névoa de embaraço, a atriz Kate Winslet, que tem 40 anos e três filhos, chamou a atenção ao admitir, em dezembro, numa entrevista a um canal britânico de televisão, ser vítima do problema. “É o que acontece quando se têm alguns filhos”, disse a atriz. “Depois de um ou dois espirros, tudo bem. No terceiro, acabou”, confessou.

A coragem de Kate foi festejada pela comunidade médica e por muitos adultos que, como ela, têm dificuldade para segurar a urina. A timidez em trazer a questão à tona só alimenta mitos, como o de que partos normais são um gatilho inevitável para o pinga-pinga no futuro. 

Segundo Miriam, os fatores de risco são bem mais complexos. “A via de parto pode levar a traumas no períneo, mas se isso vai acarretar uma incontinência depende de outras variáveis, como o tempo de gestação, o tamanho do bebê, status da musculatura perineal da gestante, presença de obesidade, tabagismo, diabetes, doença neurológica, por exemplo.” 

“Recomendo às grávidas fazerem exercícios específicos de fortalecimento do períneo ao longo da gestação”, pontua a urologista Miriam Dambros.

Mas gestação e parto não são os únicos culpados pelos vazamentos. Alguns hábitos e condições específicos do organismo de cada um também podem acarretar ou agravar a incontinência. 

A lista é vasta e inclui desde constipação crônica e histórico de infecções urinárias frequentes até o uso prolongado de medicamentos para emagrecer ou para distúrbios psicológicos, como os antidepressivos. 

Miriam explica que a bexiga é um órgão extremamente inervado e por isso é muito sensível a alterações como estresse e substâncias que mexam no sistema nervoso central.

A queda dos níveis de estrógeno na menopausa também tem relação direta com o pinga-pinga. “O estrógeno é responsável por manter uma boa vascularização em todo o trato urinário inferior”, diz Miriam. Nesse caso, nem a reposição hormonal ajuda, já que, com o tempo, algumas alterações anatômicas tornam o tecido da bexiga mais fibroso e o esfíncter mais atrofiado, diminuindo a capacidade de segurar a urina em situações de esforço.

Alguns alimentos também têm um papel no desenvolvimento ou na piora da situação. São eles: café, chocolate, alimentos ácidos e cítricos, condimentos, enlatados com alto teor de sódio e álcool.

Com tantas variáveis, conversar com o médico é fundamental para entender e solucionar esse distúrbio, que, por menos grave que pareça, pode tornar complicadas as tarefas mais simples do dia a dia. 

“Os estudos mostram que a incontinência afeta todos os âmbitos da vida: o sexual, o emocional, o social e até o econômico”, afirma Miriam, que salienta que em 80% dos casos há como estancar o vazamento.

Com base no histórico do paciente, o médico irá descobrir se ele se encaixa em um dos dois grupos da doença: a incontinência de esforço ou a de urgência. 

A incontinência de esforço é a mais frequente e, felizmente, mais fácil de tratar. Trata-se basicamente de um problema anatômico, em que o períneo perde a força para dar sustentação à bexiga quando há uma pressão extra na musculatura – o que acontece durante uma atividade física, um espirro ou uma tosse. Por isso, o tratamento envolve necessariamente fortalecer a região, o que se dá com exercícios específicos de fisioterapia. 

“É um halterofilismo do períneo”, explica Miriam. Ela enfatiza, no entanto, que é preciso persistência. “É necessário fazer sessões semanais por dois ou três meses e depois disso uma sessão de manutenção após quatro meses.

Mas os resultados para quem tem incontinência leve ou moderada são muito bons.” Caso a fisioterapia não resolva, há uma alternativa cirúrgica, que consiste em colocar uma tela na região do esfíncter urinário. Modernamente também temos encontrado na aplicação do laser intravaginal uma opção para auxiliar na restauração do colágeno vaginal elevando os índices de continência urinária.

Nos casos de incontinência de urgência, os fatores ambientais ou neurológicos têm um papel mais importante – e por isso o manejo é desafiador.

Assim mesmo, existem diferentes opções de tratamento. São elas:

  • A terapia comportamental, em que a pessoa é orientada a urinar a cada duas horas e observar os alimentos que pioram a perda urinária;
  • Medicamentos para reduzir a sensibilidade e as contrações anômalas do músculo da bexiga;
  • Reabilitação do assoalho pélvico,
  • Aplicação de toxina botulínica na bexiga. 

Em último caso, há ainda a possibilidade de aumentar o tamanho da bexiga por meio de uma cirurgia. “Mas isso é bastante raro”, afirma Miriam.

Períneo sarado

A fisioterapia para o assoalho pélvico é a primeira opção de tratamento para a incontinência urinária e costuma dar bons resultados em pouco tempo. 

“Algumas mulheres têm dificuldade em realizar os exercícios e dizem que preferem a cirurgia, mas isso não é indicado”, diz Miriam Dambros. Ela explica que a operação tem contraindicações e efeitos colaterais que podem acarretar outros problemas e por isso nunca deve ser feita antes de outras tentativas.

Para mulheres que têm mais consciência de seu períneo, às vezes uma única sessão já é suficiente para que o profissional especializado possa avaliar o caso específico e indicar os exercícios mais adequados. 

A fisioterapeuta Mirian Kracochansky observa que, melhor que procurar fórmulas prontas e tentar exercitar a musculatura sem orientação, é buscar a ajuda de um especialista. 

“Muitas usam a musculatura acessória, do abdome, dos glúteos ou dos adutores, e isso não é efetivo”, afirma, pontuando que um dos exercícios erroneamente indicados é a interrupção do fluxo de urina. “A bexiga tem memória e pode ficar acostumada à micção interrompida, o que deixa um resíduo que pode levar a infecções.”

Nessa primeira sessão, a mulher passa por uma avaliação com um aparelho de eletromiografia, em que pode visualizar facilmente qual a força de contração do períneo, quanto tempo é capaz de sustentar a contração e se está usando a musculatura correta. 

A partir daí, o especialista irá orientar a utilização de pesinhos ou outros materiais que variam em formato e tamanho. E não é preciso exagerar na dose. “Eu indico uma caminhada de meia hora três vezes por semana usando os pesinhos, e isso já é suficiente”, diz Mirian.

O ideal, segundo a fisioterapeuta, é investir na prevenção, que pode ser feita ao longo da gravidez ou no pós-parto. “Muitas vezes, no parto vaginal se rompem algumas conexões neurais, que podem ser reestabelecidas com aparelhos de neuromodulação”, explica. 

Depois, é só fortalecer, usando os pesinhos. Mirian afirma que geralmente são necessárias cerca de dez sessões de 45 minutos: “Não é um trabalho a perder de vista. Tem começo, meio e fim.” E com um benefício extra: dar um “up” na vida sexual. 

“A sexualidade e a incontinência andam de mãos dadas. Quem tem incontinência teme perder urina na hora da relação e muitas vezes acha que está com a vagina alargada, o que é um mito”, revela Mirian. “O resgate da sexualidade é uma chave para resgatar também a feminilidade e a autoestima.”

Fonte: Revista Célula Mater Press, edição 13, 2016

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